9 de agosto

fathers day

Quando você saiu de casa, você levou tudo. As roupas, os sapatos e até alguns cobertores. Mas você esqueceu a sua caneca no armário de cozinha, então eu a guardei, para o caso de tudo mudar e você voltar para casa, para o caso de você querer a sua família de novo. Só que você não voltou, porém me mostrou que era possível continuarmos sendo uma família mesmo que de uma maneira menos tradicional. Eu demorei um tempinho para me acostumar. Você, um pouquinho mais para se ajustar, até que um dia nós finalmente conseguimos. Mas eu continuei guardando a caneca, só por precaução.

Naquela época eu tinha apenas 13 anos, e fazia sentindo guardar uma caneca idiota e esperar você voltar. Eu me agarrei a cada fio de esperança porque eu precisava de você por perto, e ainda preciso. Mas agora isso é inútil, você não mais voltar. Nunca mais. Dessa vez você foi embora pra sempre e com esse “pra sempre” que eu estou tentando me acostumar.

Porém, como é que eu vou me acostumar? Como lidar com a sua ausência uma vez que ela se faz presente todos os dias, desde a hora que eu acordo até a hora que eu vou dormir? Eu que sempre fui tão metódica, que sempre gostei de seguir o manual nunca me senti tão perdida. Porque não existe manual pra isso.

Como eu devo me comportar nesse final semana? Eu posso simplesmente chorar por querer que você estivesse aqui ou eu devo manter a compostura e tentar não invejar as pessoas que tem um presente para entregar e um abraço para receber?

Eu posso até não saber o que fazer com essa situação, mas eu sei o que faria se tudo fosse diferente, se as coisas ainda fossem fáceis e se não houvesse nada para me preocupar. Se eu pudesse, eu te compraria uma camisa polo azul marinho e te daria o abraço mais apertado do mundo. Eu diria que eu te amo, que eu te amo demais, e que a sua caneca ainda está no mesmo lugar. Você sabe, só para o caso de você voltar.

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Inverno

cold
Uma vez eu estava conversando com umas amigas no BK, e em determinado momento uma delas usou a seguinte frase para se referir a uma outra amiga “Eu te amo, mas eu não gosto mais de você”.

Essa frase foi citada no livro/filme “One Day” do David Nicholls. De primeira eu consegui identificar o sentimento, mesmo sem nunca tê-lo sentindo, e pensei “Caramba, deve ser horrível se sentir assim”. E agora eu sei que é.

Percebi essa semana, e fiquei horrorizada ao constatar que me sinto assim em relação a você, uma das pessoas que eu mais amo no mundo. E eu nem ao menos sei explicar como foi que isso aconteceu, onde foi que perdemos o eixo, quando a sua amizade deixou de ser tão essencial. Mas aconteceu, é real.

Eu não sinto mais vontade de conversar com você, e eu vejo suas fotos com pessoas que eu não suporto e isso me parece “okay”. Nós não temos mais assunto, nossas conversas estão ficando a cada dia mais raras e mais vazias, eu não consigo confiar em você como antes.  E veja bem, talvez o problema não seja você, talvez seja eu. Talvez a vida tenha me deixado um tantinho mais ácida, talvez eu tenha mudado.

Porém, eu nunca vou esquecer tudo que nós passamos juntos. Durante muito tempo você foi o meu melhor amigo, e única pessoa com a qual eu me abria completamente e eu sempre serei grata por todas as vezes em que você esteve aqui por mim.
Obrigada por ter me amado, obrigada por ter segurado a minha mão, obrigada por ter me ligado de volta quando eu te liguei chorando.

E me desculpa. Vê se me perdoa por não conseguir gostar de você como eu queria. Vai ver é só uma fase, porque eu posso não gostar mais de você, porém eu sempre vou te amar.

Sobre ser fútil

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*Significado de fútil: adj.m. e adj.f.

1. Característica de quem ou do que é irrelevante; particularidade de quem é insignificante; que dá relevância a coisas sem importância ou vãs;
2. Diz-se do que ou de quem possui uma aparência que provoca desconfiança; que possui características ardilosas, que é enganador;
3. Que é desprovido de âmago ou de princípios; de caráter infantil ou tolo; que é superficial ou frívolo.

Recentemente fui chamada de fútil por reclamar de uma espinha que estava me incomodando muito. Pois bem, percebi que não é a primeira vez que uma pessoa usa esse adjetivo para se referir a mim.

Confesso que já faz um tempinho que eu ando refletindo sobre isso, principalmente por estar de saco cheio ser taxada como algo que eu não sou. E enquanto eu refletia eu percebi que todas as pessoas que usaram esse adjetivo eram mulheres com características muito parecidas, e o mais estranho e contraditório é que uma das características em comum é a luta pela liberdade de expressão e um certo engajamento social.

Veja bem, nenhuma dessas pessoas me conhecem bem o suficiente para dizer o que eu sou ou deixo ser. Fizeram um julgamento baseado em um vestido de lacinho ou em um comentário sobre a minha aparência.

Porque infelizmente é assim que funciona, meu caro. Você pode até se preocupar com a sua aparência (não muito), mas de maneira alguma pode verbalizar isso. Porque se você comenta o quanto a bolsa da moça que acabou de passar é bonita você é fútil. Se você está louca pra comprar aquela saia de cintura alta você é fútil. Comentar que o seu cabelo está cheio de pontas duplas é mais fútil ainda.

Fútil, fútil, fútil.

E eu me pergunto o porquê disso.

Qual o problema em me preocupar com a minha aparência e admirar uma bolsa bem feita? Por que isso precisa ser sinônimo de ser uma pessoa vazia, sem contudo ou menos inteligente? Isso não é o mesmo rotular as pessoas? Não estamos lutando contra esse tipo de comportamento?

Pois saibam que eu posso sim, me preocupar com a minha aparência e ser feminista. Eu posso me interessar por política e maquiagem ao mesmo tempo. Eu posso ler a biografia da Chanel e em seguida ler um livro de Machado de Assis ou Dostoiévski. Eu posso ter mil interesses diferentes e nenhum deles precisa me definir.

Eu quero ser livre para ser vaidosa sem ser rotulada. Eu não preciso de um rótulo, e você não precisa me rotular como isso ou aquilo.

Ninguém precisa.

*http://www.lexico.pt/futil/

“Okay”

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Às eu vezes eu só queria voltar para quando tudo era fácil e não havia nada com o que se preocupar. Nessa época não havia limites, as lágrimas secavam mais rápido e as feridas quase não doíam.

Eu fico me perguntando o que aconteceria se as pessoas soubessem que mato dois leões por dia para conseguir colocar um sorriso no meu rosto e aguentar firme. E se todo soubesse o que há por trás da marcara pra cílios?

Sei que é só uma fase, e que no começo é assim mesmo. Mas não tem sido fácil. Eu tento lidar da melhor maneira, eu estou reunindo forças, fazendo tudo o que posso e não posso, mas às vezes eu só queria me afogar em mim. Eu queria imergir com os olhos fechados e deixar a água invadir meus pulmões até tudo ficar silencioso, até eu me sentir anestesiada, até a dor passar. Contudo, não é assim é que funciona. não é assim que os guerreiros lutam.

Então eu vou levantar dessa cama e vou colocar a minha armadura em forma de vestido bonito. Eu vou sorrir para as pessoas e dizer que está tudo bem, porque é isso o que todo mundo quer ouvir, é com isso que as pessoas conseguem lidar. E principalmente: Porque rosto molhado não vai vencer nenhuma batalha e muito menos ganhar uma guerra.

E eu vou fazer isso pelas pessoas que me amam, e por mim, e pelo arco-íris que vai aparecer depois dessa tempestade. Eu sei que ele vai estar ali, é só olhar com mais clareza.

Enquanto isso eu vou tentando juntar os caquinhos dessa garota quebrada. Cada dia é uma batalha, é uma parte de mim que eu coloco é seu devido lugar, até me sentir completa novamente.

Eu não estou bem, mas estou okay. E “okay” é legal, por hora.